O Português Errante
Praia da Galé Virta da Praia

Praia da Galé – Melides

A viagem até à Praia da Galé tem de tudo. Atravessa-se o rio de barco, passa-se a terra onde os ricos brincam aos pobrezinhos, depois a outra, onde os presos são quase livres, segue-se entre rio e mar numa estrada emoldurada por arrozais, sapais, pinhais e outros mais e o final apoteótico dá-se quando o Atlântico se revela, majestoso, à medida que nos aproximamos da falésia.

A Praia da Galé tem tudo aquilo que se pode desejar de uma praia portuguesa durante boa parte do Verão: sol o dia todo, areal que não acaba e, sobretudo, paz. Isto porque, se andar um pouco para se afastar do aglomerado populacional da entrada da praia, ganha o direito a sentir-se incomodado se alguém plantar o chapéu a menos de cinquenta metros de si!

É assim, esta praia protegida das multidões lisboetas que acorrem, em hordas, à Costa da Caparica. Aqui, sem ninguém para ver ou ser visto, ao invés da sua parente próxima da Comporta, podemos estar à vontade, em família, sem necessidade de pedir licença dez vezes para chegar à água.

Mas nem só de mar vive este sítio. Não contente com o seu ar selvagem e livre, esta praia é delimitada por toda uma encosta de quilómetros de rocha arenosa, com formações que se assemelham a enormes fortalezas, ao jeito dos livros de Tolkien.

Conheço este sítio há cerca de vinte anos, graças a um bom amigo que tem uma casa privilegiada sobre a praia. Já cá estive de Verão, de Inverno, com calor, com chuva e de todas as maneiras. Nunca desilude. Há um ar especial aqui. Um ambiente que nada tem a ver com as praias concorridas. É quase como se fosse aquela menina camponesa, que se sente pouco à vontade em ambiente urbano. Tem aquele charme inocente que lhe dá a graça toda.

Depois de um dia de sol e mar na praia da Galé, só há duas formas de o coroar de glória: ou o pato assado na Tia Rosa (uma espécie de Fátima para os apreciadores do prato) ou então, um pouco mais distante, o choco frito na Casa Santiago, em Setúbal.

Sobre questões gastronómicas, quando nesta zona, recordo sempre com saudade a Caverna do Tigre. Contaram-me que já fechou dado que a Senhora que estava à frente morreu. Era um restaurante típico de beira de estrada, que escondia um segredo apenas partilhado entre nativos e conhecedores: um pato assado digno de realidades paralelas.

Lembro-me que tinha o telefone do restaurante entre os meus contactos e que, lá pela hora do almoço decretava a morte de um dos elementos da criação, com um singelo “Boa tarde minha senhora, era para para marcar um pato assado para quatro, por volta das oito e meia”. Cheguei a sentir-me uma espécie de Nero dos patos, de polegar hirto apontado ao centro da terra.

Quando chegávamos, lá vinha para a mesa o animal de pele tostada, castanho brilhante, a escorrer espessa alegria. Era então que, com a delicadeza possível e raciocínio toldado pela antecipação, retirava um pouco daquela carapaça estaladiça e gordurosa e a apertava impiedosamente entre dois pedaços de bom pão alentejano. Creio que cheguei a levitar numa ou noutra ocasião.

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