É um local fora do comum, como o são todos os grandes cabos. O Cabo Espichel tem uma história para contar, que mistura o místico com a beleza natural.
Venho ao Cabo Espichel desde miúdo. Creio que as casas de acolhimento aos peregrinos estavam ocupadas na altura (por retornados e não por peregrinos). Ainda se levava o carro até à igreja e dava para estacionar em frente às arcadas. Enfim, uma balducha das antigas. Hoje em dia já tem um civilizado parque de estacionamento (nada de carros estacionados no “arraial”) e uma moderna infraestrutura de restauração, onde se pode tomar um café enquanto se leva com um solzinho na cara.
Mas acima de tudo, trata-se de um sítio especial com um pronunciado lado místico, chegando mesmo a presumir-se que tenha sido um local de peregrinação e culto, desde os tempos da ocupação moura.
Aparentemente o santuário começou com uma capela que já não existe, construída com os materiais que haviam no local, para albergar a imagem de N. Sra. do Cabo. A esta imagem prende-se uma lenda contada de diversas formas mas inclui a imagem a ser trazida das águas do mar por uma mula, cujas pegadas ficaram marcadas na encosta do Cabo (na verdade são pegadas de dinossauros). Essa encosta chama-se “Pedra da Mua” (não é visível do Cabo, tem de sair numa estrada à direita, antes de chegar ao Santuário, que está assinalada com uma placa que indica “Pedra da Mua”) que é uma forma antiga de dizer mula, ainda hoje presente no nosso vocabulário na expressão “gado muar”.
Bom, mas vamos ao que interessa. Conto-lhe a história pela ordem de chegada e não pela de construção. Começamos então pelo aqueduto.
Há-de reparar que, do lado direito da estrada, quando já está próximo do santuário, há uns arcos meio perdidos na vegetação. Esses arcos pertencem a um aqueduto mandado construir pelo rei D. José para trazer água de Azoia, dado que não havia água no Cabo Espichel e com as peregrinações em massa (muitas delas encabeçadas pela família real) e as casas de acolhimento aos peregrinos a funcionar em pleno, água era fundamental.
O aqueduto vai dar à Casa da Água, construção que servia de depósito e que fica à entrada do santuário pela direita. Esta construção está hoje protegida por muros e não sei dizer-lhe se e quando a abrirão ao público. No entanto, para além do que se consegue ver por fora, lá dentro tem uma fonte e as paredes forradas a azulejos com cenas do dia-a-dia da altura em que foi construída (séc.XVIII).
Subindo até ao Santuário, começará por ver 1 cruzeiro ladeado por 2 fiadas de casas, uma de cada lado do “arraial” (esse é o nome dado ao terreiro). Essas casas foram mandadas construir pelos Círios (nada a ver com os Sírios como me foi dito quando me contaram a história da primeira vez) para acolher peregrinos, dado que se agora o Cabo Espichel é ermo, naquele tempo devia ser o fim do mundo e ir e voltar no mesmo dia, era pouco prático.
O círio é uma vela de cera que era levada a encabeçar uma peregrinação e que de alguma forma a simbolizava. Tomando-se a parte pelo todo, passou a chamar-se círio ao grupo de peregrinos que vinha até ao Santuário. Esses grupos tomavam o nome da sua proveniência, daí encontrar em algumas ombreiras das janelas das casas, referências ao Círio de Lisboa “Cazas do Sirio da Irmandade de Lixboa” .
Ao fundo está a igreja, pequena, que vale a pena visitar por ser muito rica em decoração e ter, em parte, sido recuperada recentemente. Foi mandada edificar pelo Rei D. Pedro II em 1701, em substituição de uma igreja anterior, da qual já não restam vestígios.
Atravessando as arcadas exteriores à igreja, em direção ao mar, vai até à Ermida da Memória, que pretende assinalar o sítio onde foi encontrada, segundo a lenda, a imagem de N. Sra. do Cabo pelos velhos da Caparica e de Alcabideche, em 1410.
Aqui, não pode deixar de espreitar para dentro da capela e ver os painéis de azulejos alusivos à lenda do achamento da dita imagem .
A seguir, sente-se um pouco no muro e tente aspirar toda a vista. Este é, sem dúvida, um sítio especial.
Depois de dar uma volta pelo Cabo para tirar umas fotos, volte para trás, mas não pelo mesmo caminho. Vá por fora, pelo lado esquerdo e quase a chegar ao final dessa fiada de casas há uma construção em ruínas. Trata-se da Casa da Ópera. Foi mandada construir pelo Rei D. José para oferecer espetáculos, por algumas das melhores companhias da época, quando fazia a sua peregrinação até ao Cabo (sim, eu sei que é esquisito mas era mesmo assim. Os italianos vinham mesmo aqui ao fim do mundo para cantar para o Rei e para a corte).
Esta visita não estaria completa sem ir ao farol do Cabo Espichel. Se for numa quarta-feira, poderá visitar o Farol entre as 14h00 e as 17h30 (como tudo muda, o melhor mesmo é confirmar antes de ir).
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